O que a História (e o Movimento Negro) tem a nos ensinar sobre extremismo e violência nos movimentos sociais?


Nos últimos dias o debate sobre os limites do ativismo voltou a ser destaque na internet. A coisa tomou maiores proporções depois que o cartunista (e ativista) Latuff publicou uma charge criticando a postura de uma vertente feminista mais extremista. Em sua obra, ele faz uma crítica escancarada ao sentimento "anti-masculino" presente no discurso de algumas feministas. A reação foi imediata: enquanto parte de seu público concordou com a publicação, outras pessoas declararam repúdio ao ato. Para elas, a charge sugere erroneamente que o feminismo em seu viés mais intenso estaria promovendo a violência contra o homem. 

Começo esse texto alertando que o tema aqui tratado não é feminismo ou qualquer uma de suas vertentes. Penso que, enquanto historiador, meu papel não é apoiar ou não os movimentos sociais. Observá-los, no entanto, me parece muito oportuno, porque à medida que o ativismo visa a transformação da sociedade em seus valores, é imensamente necessário realizar a avaliação do sucesso de cada postura. Neste sentido, trago ao público minha visão sobre o sucesso de cada tipo de abordagem ativista, afinal, qual a melhor maneira de transformar a sociedade? Será através de um pacifismo passivo ou optando pelo enfrentamento alinhado ao discurso de "ódio ao opressor"?

Para ilustrar minha tese, proponho analisar os caminhos e conquistas do Movimento Negro Americano dos anos 1960. Caracterizada pela pluralidade de pensamentos e vertentes ideológicas em torno da posição do negro na sociedade estadunidense, a década de 1960 foi palco de pacifismo, resistência armada e até mesmo pensamentos ligados à ideia de "supremacia negra". 

Um esquema de três atos

Antes de mais nada, é válido considerar que todo o espaço conquistado pelo Movimento Negro nos Estados Unidos é fruto de uma soma de esforços. Portanto, não é possível tratar cada vertente do movimento de forma isolada. Pense como três grandes agentes contrários a um contexto muito maior: a sociedade altamente racista norte-americana. 

Estudante negro em "área restrita para brancos", em
um colégio em Atlanta, na Geórgia, EUA, 1963. (LIFE)
O fim da escravidão nos Estados Unidos não poderia ter acontecido de maneira mais traumática. Quando a abolição entrou em pauta, o país se dividiu em dois e travou uma sangrenta guerra civil, a famosa Guerra da Secessão. A parte do país interessada em manter a escravidão perdeu a guerra, o que, em tese, deveria garantir aos negros a liberdade. Na prática, é perceptível que a abolição da escravidão não significou qualquer mudança na segregação racial, se tratava apenas de uma conveniência econômica para os estados do norte do país.

Há quem diga, ainda, que a questão racial nos Estados Unidos até mesmo piorou depois da abolição, porque os Estados Confederados (sulistas escravocratas) alimentaram um sentimento cultural de revanchismo após a derrota para o Norte. Isso é notável ao observar como todas as esferas do governo, seja por ação ou omissão, buscaram limitar os direitos civis dos negros.


Considerados cidadãos de segunda classe, negros e mestiços eram separados nas escolas públicas, ônibus, banheiros e, pela lei, estavam legalmente proibidos de se casar (ou mesmo morar junto) com brancos. Fotografias de apenas 50 anos atrás demonstram como era gritante a segregação racial. 

Homem negro utiliza bebedouro segregado em um terminal de transporte público em Oklahoma, EUA, 1939. (Russel Lee/US National Library).

Martin Luther King Jr. e o discurso de resistência não violenta

Pastor da Igreja Batista, Martin Luther King Jr. se tornou um notável na luta contra o racismo baseada no amor ao próximo. Influenciado por Marhatma Gandhi, ele foi um adepto das alternativas não violentas de protesto. Em 1955, após a prisão de uma mulher negra que teria se recusado a ceder o assento do ônibus a uma branca, Luther King liderou um boicote aos ônibus da cidade de Monglomery, Alabama. Pouco mais de um ano depois, por decisão da Suprema Corte Americana, a segregação no transporte público foi abolida e declarada ilegal. Era apenas o começo.

Considerado a principal liderança da comunidade negra cristã, ele articulou diversas manifestações, sempre alinhadas aos princípios da desobediência civil, em prol de direitos civis básicos, como o voto, trabalho e igualdade. Boa parte de suas reivindicações foram integradas à Lei dos Direitos Civis (1964) e Lei de Direitos Eleitorais (1965). King era visto pelo Movimento Negro como a ponte mais próxima com os desejos do governo, e era muito criticado por isso. Seu discurso "I Have a Dream" (Eu Tenho um Sonho) durante uma manifestação em Washington D.C. entrou para a história ao inspirar milhares de pessoas a lutar e sonhar com um futuro de coexistência e harmonia entre negros e brancos. 

"Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados por sua personalidade, não pela cor de sua pele."
Martin Luther King Jr.

Luther King frente ao Memorial Lincoln em Washington, durante a chamada "marcha pelo emprego e pela liberdade", ocasião em que ele proferiu seu famoso discurso "I Have a Dream", 1963. (AFP/Getty Images)

Apesar da relativa aproximação com o governo, King não era bem visto pelo F.B.I. Ele foi intensamente investigado e ameaçado sob suspeita de comunismo, principalmente após 1965, quando passou a se posicionar contra a Guerra do Vietnã. Ele foi assassinado em um hotel em 1968, às vésperas de uma manifestação em Memphis, Tennessee


Três negros violentamente reprimidos durante manifestação não violenta pelos Direitos Civis em Birmingham, Alabama, 1963. (Charles Moore/Black Star).

A cobertura da luta pelos direitos civis pelo fotojornalista Charles Moore foi singular. Suas fotografias retrataram muito bem a repressão policial contra os negros e suas manifestações pacifistas. Em análise, o historiador Arthur Schlesinger Jr aponta a importância da obra de Moore para a mudança da opinião pública sobre as reivindicações do movimento dos Direitos Civis.

Momento da prisão de Martin Luther King Jr. em Montgomery, EUA, 1958. Ele foi detido sob acusação de vadiagem enquanto aguardava pelo horário do julgamento de um amigo em um bar próximo ao tribunal. (Charles Moore/Black Star).

Malcolm X e a libertação do negro por "qualquer meio necessário"

A história de luta de Malcolm X é bem diferente que a de Luther King. Órfão de pai aos 6 anos, Malcolm teve uma vida muito dura e se envolveu com o crime e tráfico de drogas por muito tempo. Em 1946, foi condenado a 10 anos de prisão, e foi lá que sua visão de mundo mudou. Originalmente cristão, na cadeia ele se aproximou do islã e dos ideais de nacionalismo negro. Dedicou os tempos de cárcere à intensa leitura e quando saiu já era um orador talentoso, tornando-se rapidamente uma liderança da organização Nação do Islã. 

“Eu não chamo de violência quando é em autodefesa, eu chamo de inteligência"
Malcolm X

Malcolm era um adepto do enfrentamento aos brancos, e, à medida que as tensões raciais aumentavam nos anos 60, seu discurso se tornava mais inflamado. Para ele, qualquer meio era válido para resistir ao racismo. Por muito tempo ele viu no islã uma ligação com os negros tal qual o cristianismo estava para os brancos. Assim, os brancos eram um rival, figura que, em caso de provocação, deveria ser eliminada.


Veja também: 11 fotos históricas para entender a trajetória do Movimento Gay na luta por Direitos Civis




Malcolm X exibe manchete "Nossa liberdade não pode esperar" em um comício da Nação do Islã, Nova York, 1963. (NYWTS/US National Library).

Suas declarações polêmicas, apesar de seu forte carisma, lhe renderam inimigos dentro e fora do islã, afetando negativamente a opinião pública sobre o Movimento Negro e criando atritos com outras vertentes da Nação do Islã. Malcolm X foi assassinado (16 tiros no peito) em 1965 enquanto discursava para negros em uma organização não religiosa, ele foi morto por 3 membros da Nação do Islã.

“Balas fatais acabaram com a carreira de Malcolm X antes que ele tivesse tempo para desenvolver suas novas ideias”.
Michael S. Handler

Era o início de uma nova fase na vida política de Malcolm X, no ano anterior ele havia ido a Meca (terra sagrada dos islâmicos), e lá se converteu ao islamismo tradicional, admitindo a Nação do Islã como uma versão distorcida da religião. De volta aos EUA, ele fundou a Organização de Unidade Afro-Americana, instituição não religiosa em defesa dos direitos humanos. 

Os Panteras Negras e a resistência armada

Constituído em 1966, um ano após a morte de Malcolm X e num contexto em que Luther King não se enquadrava, o Partido dos Panteras Negras era um movimento armado que buscava, através de princípios legais como a legítima defesa e o direito do porte de arma, reagir a qualquer situação de abuso policial em bairros pobres de Nova York, Califórnia e Chicago. 

Panteras Negras de Nova York marcham em direção a uma conferência de imprensa nas Nações Unidas, 1968. (Bettmann/Corbis).

Da esquerda para a direita, Peter Norman, Tommie Smith e 
John Carlos durante o histórico gesto em apoio aos Panteras
Negras nas Olimpíadas do México, 1968. (John Dominis/LIFE).
Apoiados por boa parte da população negra, os Panteras Negras patrulhavam por esses bairros, entrando em confronto direto com a polícia, no que resultou em diversos tiroteios e na perseguição por parte do F.B.I. Entre as reivindicações do movimento estava a libertação de todos os negros presos e a indenização (e isenção tributária) pelos "séculos de exploração branca". Também se reivindicava o direito ao acesso à educação, contando a história de acordo com o seu ponto de vista, diferente da "história contada pelos brancos". Eles começaram a perder adeptos já na década de 1970, à medida que o radicalismo e a perseguição do governo aumentava. Em 1982 o partido estava oficialmente extinto. 

A mais emblemática manifestação de apoio aos Panteras Negras aconteceu durante as Olimpíadas do México de 1968, durante uma disputa de atletismo, no pódio, ao receber as medalhas ao som do hino nacional americano dois negros americanos e um branco australiano demonstraram apoio aos Panteras Negras, eles fizeram o tradicional gesto do Partido das Panteras Negras. Como só havia um par de luvas negras, coube ao australiano apenas ostentar um distintivo do partido na camiseta. Os três foram punidos pela manifestação e tratados pela imprensa como vergonha nacional.

Afinal, qual a melhor maneira de se buscar um objetivo político?

Dada a devida contextualização de um momento tão plural na história da luta pelos Direitos Civis, é notável a maior facilidade de diálogo e conquistas efetivas entre as vertentes mais flexíveis dos movimentos sociais. Mas será que Martin Luther King teria ido tão longe sem a ajuda de Malcolm X? Uma característica marcante dos movimentos mais extremistas é a capacidade de chocar a opinião pública. Sob o risco da reação violenta, até mesmo os setores mais conservadores da sociedade se pegam avaliando as reivindicações de um grupo.

Se a capacidade dos movimentos mais extremistas de atrair atenção  pode ser reconhecida como um certo benefício aos movimentos sociais, é inegável também que a inflexibilidade desses grupos é capaz de travar qualquer diálogo com o restante da sociedade. Assim, sob a premissa da democracia, os grupos não-radicais são uma peça fundamental no processo de diálogo e negociação de reivindicações razoáveis. Há também de se considerar a proporção de cada vertente, afinal, o apoio da opinião pública é um delicado aliado a ser conquistado.

O relativo sucesso nas conquistas do Movimento Negro dos anos 1960 se deu, entre outras variáveis, através de uma anatomia capaz de explorar com eficiência o potencial de cada vertente ideológica. Isso sinaliza que o melhor momento para um movimento social obter importantes conquistas está ligado, não a uma única vertente, mas à forma que suas vertentes se relacionam em proporção, esclarecendo-se as críticas entre cada setor e possibilitando assim um diálogo mais maduro com o restante da sociedade.

Manifestação pacífica antirracista durante uma greve em Memphis, Tennessee, 1968. (Ernest Withers).


Fontes:  
http://arquivo.geledes.org.br/atlantico-negro/afroamericanos/martin-luther-king/12435-o-fotografo-charles-moore-e-a-prisao-de-martin-luther-king
http://www.loc.gov/pictures/item/fsa1997026728/PP/
http://revistagalileu.globo.com/Sociedade/Ativismo/noticia/2014/11/conheca-historia-de-como-o-fbi-quis-matar-martin-luther-king-com-palavras.html
http://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/os-panteras-negras-e-o-movimento-racial-nos-eua.htm
http://www.dw.de/1965-malcolm-x-%C3%A9-assassinado-no-harlem/a-778387
http://jornalggn.com.br/video/como-o-fbi-se-infiltrou-entre-os-%E2%80%98panteras-negras%E2%80%99
http://www.cedap.assis.unesp.br/cantolibertario/textos/0004.html
http://acervo.oglobo.globo.com/fatos-historicos/militantes-contra-racismo-fundam-nos-eua-grupo-panteras-negras-10060754


Bruno Henrique Brito Lopes 
Graduando em História pela Universidade Católica de Pernambuco. 


Sobre este site

O Projeto História Ilustrada é uma iniciativa acadêmica apoiada pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) e pela Fundação Antõnio dos Santos Abranches (FASA). Todos os autores deste site são formados ou estudantes do curso superior em História. Nós usamos técnicas de redação compatíveis com a linguagem da internet com o objetivo de disseminar o conhecimento e paixão pelos estudos históricos.

5 comentários: