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3 pontos que você precisa entender antes de cursar História

Ler: uma das atividades primárias do historiador. (Imagem: StockVault)

O que é estudar História? O que é fazer História? Será que é tudo aquilo que encontramos nos estereótipos dos comentários dos tios no almoço de domingo ou aquelas piadinhas que vemos com frequência em várias páginas do Facebook?
Se você ainda é jovem e pensa em ser historiador; se você já não é tão jovem assim, mas tem a vontade de seguir carreira acadêmica na área de História; se você está em dúvida sobre qual caminho escolher na vida e uma das opções é o curso de História, continue lendo, porque esse artigo foi feito especialmente para você.

O que iremos fazer aqui é o seguinte: desmistificar o curso, ampliar a sua visão acerca das atividades do historiador e te dar algumas bases para que você já inicie o próximo semestre sabendo o que vai encontrar pela frente. E desde já aconselhamos: não se assuste, é grande o número de pessoas que se surpreendem logo nas primeiras disciplinas cursadas na faculdade.

Para ir se acostumando com a desconstrução que o curso oferece, abra seu bloco de notas e guarde algumas informações, vá atrás depois. Se você quer mesmo ser um historiador, deve manter acesa essa chama da curiosidade aí dentro. Lembre-se: a História não está morta, fixa, inalterável, há sempre mais a ser descoberto.



História como ciência: o que você sabe a respeito?


A História sempre esteve presente em tudo. Se partirmos para a definição encontrada no guia de praticamente todo historiador (estamos falando de Apologia da História, a obra inacabada de Marc Bloch), a História estuda o ser humano, mas não somente isso, estuda as ações do ser humano no tempo. Então, partindo desta definição basilar, há muito para se debruçar sobre e, consequentemente, a ciência acaba trabalhando com outras, como a Sociologia, Psicologia, a lista pode ser extensa.

Mas, essa interdisciplinariedade nem sempre esteve no ato de fazer história. Para isso, vamos voltar ao século XIX, quando finalmente a História foi reconhecida como ciência.
Leopold von Ranke, um dos primeiros historiadores positivistas. (Cópia de óleo por Adolf Jebens, original por Julius Schrader, 1875. Märkisches Museum, Berlim)
Ela surgiu após a influência positivista do filósofo Augusto Comte, que viria a influenciar uma série de intelectuais até mesmo no século XX. E é através dos nomes de Leopold Von Ranke e Fustel de Coulanges, prussiano e francês, respectivamente, que vemos a História tomar seus rumos de uma forma mais sistematizada.
E qual era a visão de "fazer história" que a metodologia positivista possuía?

- Uma história contada de forma linear, progressivamente.
- Apresentar fatos históricos de forma verdadeira.
- Neutralidade e objetividade, narrar o passado com imparcialidade.
- Resgatar o passado em sua totalidade através de documentos oficiais e atestados como legítimos.
- Uma História marcada por grandes acontecimentos, fatos históricos e rupturas que explicitam o progresso histórico.

As características do positivismo, como você poderá ver ao longo do curso, se mostram claramente ineficientes e incompletas quando aplicadas para a análise dos acontecimentos.
Primeiramente que a linearidade atrapalha a compreensão da trama complexa de fatores, múltiplos em suas naturezas, que devem ser organizados e dialogados entre si. E, como já dizia Lucien Febvre, "a história é filha do seu tempo". Não há imparcialidade na análise historiográfica, de forma que apresentar fatos históricos como unicamente verdadeiros, inalteráveis, torna-se uma pretensão grandiosa, já que às vezes existem detalhes que passam despercebidos, que ninguém descobriu ainda, com o poder de mudar a compreensão que temos sobre algo.
Existem múltiplas formas de se olhar para um fato e, em muitas vezes, algumas formas se complementam. O ponto é que de tempos em tempos vemos a história sendo revisada, vestígios do passado que se faziam ocultos são descobertos e casos tidos como "fechados" se mostram diferentes.
É ainda no século XIX que vemos ascensão de outra corrente historiográfica que viria formar um grande número de pesquisadores adeptos, muitos deles você poderá encontrar enquanto estiver cursando na faculdade.
Karl Marx, criador do Materialismo Histórico Dialético.
Estamos falando do marxismo como metodologia para o fazer história, o Materialismo Histórico, que se origina da filosofia de Marx, o Materialismo Dialético.
Resumidamente, tal metodologia analisa os processos históricos através do prisma da relação do ser humano com os meios de produção. Ela é uma metodologia materialista, pois despreza o metafísico, partindo do princípio de que o ser humano e a sua consciência são determinados pela matéria.
Esta abordagem, logicamente, vai pender para os campos da economia e do social, onde encontraremos grandes historiadores como Eric J. Hobsbawm e E. P. Thompson.
O materialismo histórico é fruto do seu tempo, de uma Europa em ebulição após a Revolução Industrial e a consequente disseminação do liberalismo através da classe burguesa, da consolidação política dos operários que alienavam sua força de trabalho e enfrentavam duramente os períodos instáveis da economia. É coerente que a História, a partir deste tempo, também seja feita com um olhar voltado para o que estava em discussão na época: os meios de produção.
Mas então, é só isso? A maioria dos graduandos entram no curso sem conhecer um dos movimentos intelectuais mais importantes do século XX: a Escola dos Annales. Trata-se de uma escola que revolucionou a historiografia de forma única e trouxe uma amplitude muito maior para os estudos analíticos das ações do ser humano no tempo.
Marc Bloch em sua última fotografia, 1944.
Ela se iniciou na década de 1920 através de Marc Bloch e Lucien Febvre, já citados aqui neste texto, uma mostra da importância que os dois tiveram para a historiografia. Eles formaram a primeira geração do movimento, indo de encontro ao positivismo e toda a sua herança, procurando ampliar os estudos para a chamada "história total". Enquanto o positivismo focava somente em grandes acontecimentos, em figuras marcantes e pontos de ruptura, a História de Bloch e Febvre vem para a abranger campos inexplorados, aliando-se à interdisciplinariedade a fim de compreender com mais clareza os fatos no tempo.
A segunda geração da escola é liderada por Fernand Braudel, que dá continuidade à revolução feita pelos seus antecessores, chegando então à terceira geração de Jacques Le Goff, grande medievalista que provavelmente você encontrará bastante durante o curso.
Todas essas gerações possuem as suas peculiaridades, mas todas dialogam entre si, nunca ficando restritas a um modo fixo de entender os acontecimentos, mas sempre procurando problematizar, aplicar novos métodos e, consequentemente, compreender melhor o que faz parte do nosso mundo.

O que alguém formado em História faz?


Você sabe responder essa pergunta? Normalmente a resposta remete às salas de aula lotadas de alunos do ensino fundamental e médio que na maioria dos casos não estão nem aí para nada. Ou para as salas das universidades onde o ensino é um pouco mais específico. Ou seja, a imagem do historiador é sempre vinculada à profissão de professor.
E isso não é acontece à toa.
As disciplinas ofertadas no curso de Licenciatura em História, que é o mais popular e, falando de mercado, o mais vantajoso, passam pelo mais puro estudo historiográfico para a análise de um PPP (Projeto Político Pedagógico), por exemplo.

Basicamente, a escolha pelo Bacharelado te permite ser o historiador que uma pessoa formada em Licenciatura também é. Porém, o mercado é bem mais restrito, já que não existe oficialmente a profissão de historiador no Brasil. A profissão está esperando a sua regulamentação no Legislativo através da PL 4699/12. O seu status no momento é: "aguardando apreciação pelo Senado Federal". Ok. Enquanto isso não acontecesse, fazer Licenciatura vai continuar sendo a melhor opção para quem quer ser historiador e ter uma vida confortável financeiramente.

Sim, porque essa fama de que historiador ganha mal ou "passa fome" é nada mais do que boato. Existe sim, ainda, a falta da valorização do professor, sendo necessário realizar mestrados e doutorados para finalmente chegar a um conforto financeiro, porém, o caminho para isso não é tão doloroso como se pensa.
Aliás, você já parou para pesquisar na lista de atividades remuneradas que alguém formado em História pode desempenhar, além de professores e pesquisadores de universidades?

- Gestão documental em arquivos públicos e privados.
- Pesquisadores em empresas voltadas para a "história empresarial".
- Técnicos em órgãos de preservação de patrimônios.
- Atividades dentro do campo arqueológico.
- Consultores em produções de filmes, peças, livros de ficção, novelas, seriados, jornais e quase tudo o que você assiste na televisão.
- ONGs que procuram resgatar a memória de algum ícone ou acontecimento específico.
- Trabalhar em campanhas eleitorais.

Como você pode ver, o mercado é bem amplo. Você pode trabalhar como consultor para uma empresa a fim de resgatar a sua história, ganhando muito bem, aliás, enquanto desenvolve a sua pesquisa principal numa universidade, satisfazendo seu bolso e sua mente.
Sem falar que os professores de História não ficam restritos apenas ao seu curso de origem. Eles estão espalhados em outros como os de Jornalismo, Arquitetura e Urbanismo, Museologia, por exemplo.

Os estereótipos são realmente verdadeiros?

O que mais se escuta quando o assunto é o curso de História na faculdade? Os estereótipos são quase sempre os mesmos, apenas variando um pouquinho. Vamos até fazer uma listinha aqui para facilitar:

- Camisa vermelha do Che Guevara.
- Marxista/socialista/comunista.
- Ateu.
- Homens usam barba e deixam o cabelo crescer.
- Todos andam de sandálias.
- Uso de drogas ilícitas.
- Paz e amor livre.

Então, possivelmente você vai encontrar esse tipo de pessoa em alguns cursos da universidade, mas não, essa ideia de que todo aluno de História é sempre de esquerda, ateu e adora usufruir de drogas ilícitas naturais, logicamente, é nada mais do que... um estereótipo.
Você vai encontrar pessoas de todos os tipos no seu curso, desde o religioso mais fervoroso ao niilista.
Só para você ter uma ideia da pluralidade de personalidades que temos entre os historiadores, Marc Bloch batalhou ativamente na Segunda Guerra Mundial (sendo essa a causa de sua morte). E se por um lado se fala tanto em historiadores declaradamente de esquerda, esquece-se que existem outros declaradamente de direita, conservadores, como o britânico Paul Johnson.
Não, não é somente de "Milenas" que os cursos de Ciências Humanas, principalmente o de História, são feitos.
Universidades são os lugares onde você, com toda a certeza do mundo, terá que lidar com um grande número de pessoas que pensam diferente de você, se vestem diferente, falam diferente e agem de forma diferente.
Partindo de uma visão generalizadora, não há somente um estereótipo, existem vários e talvez você se confunda entre eles quando acabar percebendo que, na verdade, ficar restringindo a compreensão da personalidade de alguém à uma bolha é algo ineficiente. Algo que um historiador não deve fazer.

Boa sorte para quem fez o Enem este ano. E se você escolher História como curso, temos a certeza de que nunca mais será o mesmo.



Equipe de produção do artigo:

Beatriz de Miranda Brusantin
Doutora em História Social pela Universidade Estadual de Campinas
Coordenação de Produção e Pesquisa Histórica
Bruno Henrique Brito Lopes
Graduando em História pela Universidade Católica de Pernambuco
Coordenação de Redação e Edição
Raphael Esteves de Almeida Jacinto
Graduando em História pela Universidade Católica de Pernambuco
Produção de texto
Vamberto Gonçalves da Silva
Graduando em História pela Universidade Católica de Pernambuco
Pesquisa Histórica
Dannyel Oliveira Souza
Graduanda em História pela Universidade Católica de Pernambuco
Pesquisa Histórica
Rafael Ragner Valentim Phaelante da Câmara Lima
Graduando em História pela Universidade Católica de Pernambuco
Pesquisa Histórica
Felipe Nunes de Almeida Pereira
Graduando em História pela Universidade Católica de Pernambuco
Pesquisa Histórica

O mito nacionalista da Independência do Brasil


Ouviram do Ipiranga as margens plácidas; de um povo heroico o brado retumbante, e o sol da liberdade em raios fúlgidos; brilhou no céu da Pátria nesse instante. 

Joaquim Osório Duque Estrada, 1831



Nesse instante, um “povo heroico” viu o céu da pátria, às margens do Rio Ipiranga, brilhar à luz da liberdade. Os raios da “liberdade”. Parece muito poético, não?

Nosso hino nacional hoje costuma estar quase sempre associado a feitos memoráveis no futebol e no esporte em geral. É um novo papel dado a um símbolo que remete a um importantíssimo episódio de nossa história: a Proclamação da Independência. 

Sob críticas até mais frequentes que a capacidade seleção brasileira tem tido de nos anestesiar, o hino nacional - e toda a mitologia por trás do Sete de Setembro - é hoje um alvo de permanentes questionamentos. E sobre isso, parece que a comunidade intelectual está de acordo: o hino nacional brasileiro é o exemplo vivo de como não enxergar a emancipação do Brasil.

Aquele dia no começo do mês de setembro estava longe de ser referido como um momento de heroísmo. Análises históricas do contexto social daquele "Brasil" sequer apontam a participação de populares no processo de emancipação. Outros estudiosos ainda insistem em desconstruir até aqueles mínimos detalhes do conhecido cenário de um jovem imperador com uma bela espada, gritando de seu cavalo para declarar a liberdade da nação (não se iluda!).

É o roteiro perfeito de uma cena de teatro. Talvez não por acaso. Essa abordagem nunca saiu das pinturas e relatos nacionalistas. A verdadeira história passa longe de um grito na beira de um rio. E compreender o Brasil sob uma perspectiva mais adequada exige visualizar a história de forma muito mais complexa do que costuma-se pensar.

Podemos começar implodindo qualquer vestígio de sentimento patriota naquele Brasil de 1822. Éramos colônia: um território descentralizado com muito bem definidos compromissos econômicos com Portugal. 

Cada fatia daquela colônia se desenvolveu isolada por muito tempo. E como se pode perceber até hoje, costumes distintos se consolidaram em cada região. Ainda é muito mais fácil reivindicar-se pernambucano (ou carioca, ou catarinense, por exemplo...) do que brasileiro. Para Portugal não era interessante conectar seus domínios coloniais, isolá-los era uma forma de enfraquecer qualquer conspiração. 

Tiramos daí que a nação brasileira não nasceu com a independência. Por outro lado, talvez essa data seja o marco do início da busca que ainda vivenciamos nos tempos atuais. Afinal: o que é ser brasileiro? Não espere que este texto responda. Com muita pesquisa, e um bom faro, um historiador de sucesso conseguirá dizer justamente o contrário.
Transferência Família Real Portuguesa para o Brasil (Autor Desconhecido).
O processo de independência celebrado no Sete de Setembro não começou naquele Mês, ou mesmo naquele ano. Foi uma sucessão de elementos que tomou força a partir da chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil em 1808.

Em razão de desacordos diplomáticos com a temida França Napoleônica. O Reino de Portugal, sob o comando de Dom João IV, se viu obrigado a transferir sua corte para o Brasil, abandonando Lisboa e fixando comando no Rio de Janeiro. Era o começo do fim do Brasil Colônia. 

Em pouquíssimo tempo, o imenso Brasil, outrora fragmentado, foi liberado do Pacto Colonial, passando a interagir comercialmente com outras potências europeias. O Brasil passava a ser autônomo, e pela primeira vez começava a usufruir de seus ganhos (antes recolhidos por Lisboa): Dom João IV iniciou modificações estruturais de caráter urbano e social. O que antes era um mero ponto de exploração mercantil, pouco a pouco passou a receber desde obras de transporte e saneamento até edifícios voltados para a arte e à intelectualidade, como bibliotecas e teatros. 

Se por um lado a maior parte das mudanças veio a ocorrer nas proximidades do Rio de Janeiro, onde a Família Real se instalou, a cobrança de altos impostos para sustentar a toda a corte vinha de todo o território. 
Mapa do Brasil do século XIX
Se você consegue imaginar o descontentamento das outras regiões do Brasil, pense agora no outro lado do Atlântico: Portugal, por séculos o núcleo indiscutível do Império, estava agora literalmente abandonado à própria sorte. 


Não demorou muito tempo para os portugueses protestarem o retorno da corte a Lisboa. A chamada Revolução do Porto significou para Portugal o fim do absolutismo e para o Brasil foi a catalisadora da independência. Os revoltosos intimaram o retorno de Dom João VI a Lisboa imediatamente, caso contrário, nomeariam outro Rei.


Pedro, seu filho e herdeiro do trono português, ficou no Brasil na condição de príncipe regente. Mas os portugueses queriam mais: eles não aceitavam o fim do Pacto Colonial, e pressionaram intensamente a Coroa para restabelecer a condição do Brasil. 

(Quando é dado um doce para uma criança, dificilmente ela vai querer devolver.)


Existe um filme chamado “Independência ou Morte! ” que foi produzido no período da ditadura militar, e conta a história da independência do Brasil de forma heroica e romântica, a partir de um único personagem: D. Pedro I. Essa obra ilustra bem como se buscou forjar uma identidade nacional através de memórias pouco fieis com o que realmente aconteceu. 

Queriam cultivar nos espectadores uma ideia de que a emancipação do país se deu de forma homogênea e gloriosa: o filme inteiro parece circundar a figura pessoal de Dom Pedro I. E o faz em busca de fabricar uma aura gloriosa, paternal e amiga do povo. 

Pedro parece excessivamente próximo e zeloso para com o "povo brasileiro". Ao mesmo tempo, curiosamente (ou previsivelmente) este "povo" a quem o príncipe e futuro imperador parecia se preocupar tanto, se restringia às elites locais. Essa elite, por sua vez, é vista na obra glorificando Dom Pedro. 

Isso parece uma tentativa de justificar a construção do episódio conhecido como "Dia do Fico", no qual - segundo a historiografia tradicional, muito bem representada no filme - o "herói" declara que fica no Brasil para o "bem e felicidade de todos" (este episódio representa a resistência contra as pressões de Lisboa pelo retorno do Pacto Colonial). Nesse momento o filme busca mostrar Dom Pedro consultado o "povo", andando pelas ruas e cumprimentando as pessoas. 

A "historiografia tradicional" parece estar sempre abarrotada de aspas.

Perceba o permanente uso das aspas para se referir ao "povo brasileiro" representado no filme e nos livros de História mais antigos. Essas aspas não estão ali só para apontar a falta de um sentimento de unidade nacional, elas vão além e denunciam o caráter excludente daquela sociedade. Perceba que as pessoas que o príncipe cumprimenta e consulta são todas brancas e bem vestidas. Nas ruas só há donzelas e cavalheiros. Salvo em rápidas passagens de cena, trabalhadores livres e escravos são vistos em alguma atividade. É grave perceber que o trabalho, motor central da Colônia, acaba não sendo abordado nesse filme.

A boa notícia é que ainda há muitos vestígios que ilustram como era o povo do Brasil Colônia:

Green Negroes (Debret, Jean Baptiste. 1825 - 1826. Instituto Moreira Sales).
Pari Expedition (Debret, Jean Baptiste. 1825 - 1826. Instituto Moreira Sales).
Mineiros Halting (Debret, Jean Baptiste. 1825 - 1826. Instituto Moreira Sales).
Mineiro Passing River *Debret, Jean Baptiste. 1825 - 1826. Instituto Moreira Sales)
Cadeira of Rio de Janeiro (Debret, Jean Baptiste. 1825 - 1826. Instituto Moreira Sales).
Na contra-mão dos livros saudosistas, artistas, como o francês Jean Baptiste Debret, buscaram demonstrar justamente o contrário: a diversidade étnica presente no Brasil era considerada um traço exótico e curioso, o que tornava os quadros que retratavam tal realidade caríssimos. Isso permite a quem pesquisa, entender o passado do nosso país com mais realismo.

Consultando ou não aqueles que podiam ser chamados de "povo", é sabido que Dom Pedro já se mobilizava pela centralização política do Brasil. Ainda sob a condição de príncipe, realizou diversas viagens diplomáticas para outras regiões. Foi justamente em uma dessas viagens que teria ocorrido o famoso episódio às margens do Rio Ipiranga: Pedro recebe uma carta de José Bonifácio, apontando as exigências da corte portuguesa, e a necessidade do rompimento político com Lisboa. Ali mesmo, como num ato de coragem, ele sobe em seu cavalo e grita o famoso "Independência ou Morte".




Entretanto, esse cenário é frequentemente contestado pelos historiadores. As críticas à narrativa vão desde as mais específicas, como aquelas que sugerem que o próprio Dom Pedro estaria com forte diarreia em 7 de Setembro de 1822, até às mais estruturais, que denunciam o reducionismo sobre a data. O que não se discute é que o processo de independência se deu ao longo de anos, e foi motivado por interesses econômicos das elites locais. Para a maior parte da população do Brasil, nada mudou.

 O grito do Ipiranga. Pedro Américo, 1888.

Pode até ser que você não tenha visto aquele filme, mas provavelmente essa imagem você conhece. Ela está na maioria dos livros didáticos e é talvez a ilustração mais utilizada para se simbolizar o Sete de Setembro.



O Grito do Ipiranga, de Pedro Américo, foi uma encomenda do segundo e último imperador do Brasil, Dom Pedro II, que na decadência de seu governo buscou retratar seu pai em momento heroico. Também sobram comentários sobre essa obra. 

Cabe destacar que se trata de uma cena do imaginário do artista, visto que o episódio da independência nem mesmo foi publicado em jornal. E isso que pode ser o maior indício de que o "povo" (até mesmo os raríssimos alfabetizados, capazes de ler jornais) esteve completamente à margem do evento.

E nesse sentido, Pedro Américo deixa pistas em sua pintura: note que, no canto inferior esquerdo, um trabalhador rural observa com espanto a movimentação de Pedro I e seus companheiros.




Proclamação da Independência. René, François Moreaux, 1844. Esta obra, anterior à de Pedro Américo, parece ser ainda menos fiel ao que pode ter acontecido naquela data. É outra oportunidade de refletir os significados da emancipação política do Brasil.
Se Dom Pedro I estava mesmo com diarreia no dia da Independência, não podemos - nem precisamos - ter certeza. Mas quanto ao heroísmo que por tanto tempo nos foi empurrado goela abaixo, já não se pode dizer o mesmo. Hoje é raro encontrar historiador que não identifique a imagem fabricada da presença patriotismo no Brasil que se emancipou de Portugal.

Sobre essas pinturas e filmes, sobra a análise cuidadosa sobre como a História pode ser utilizada como ferramenta ideológica a fim de fabricar argumentos ou excluir personagens. 


"É possível contar um monte de mentiras dizendo somente a verdade"



Equipe de produção do artigo:

Beatriz de Miranda Brusantin
Doutora em História Social pela Universidade Estadual de Campinas
Coordenação de Produção e Pesquisa Histórica
Bruno Henrique Brito Lopes
Graduando em História pela Universidade Católica de Pernambuco
Coordenação de Redação e Edição
Camilla Fernandes Nunes
Graduanda em História pela Universidade Católica de Pernambuco
Pesquisa Histórica e Produção de texto

Fontes:
http://www.revistadehistoria.com.br/secao/perspectiva/reino-da-imaginacao
http://www.revistadehistoria.com.br/secao/cine-historia/independencia-ou-morte
http://www.ims.com.br/ims/
O Brasil Imperial, volume I: 1808-1831/ organização Keila Grinberg e Ricardo Salles - Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. 
SCHWARCZ, Lilia Moritz. A longa viagem da biblioteca dos reis - São Paulo: Companhia das Letras, 2002. 

7 filmes sobre a época da Ditadura Militar que merecem ser vistos

O Dia que Durou 21 Anos: Castelo Branco, sem quepe, articulador e primeiro presidente do regime militar no Brasil.
O Dia que Durou 21 Anos. Castelo Branco (direita, sem quepe), um dos articuladores do golpe e primeiro presidente do regime militar. Divulgação/Pequi Filmes.

Listas sobre filmes que abordam o período da ditadura militar no Brasil existem aos montes pela internet. O projeto História Ilustrada já divulgou algumas delas em outras ocasiões.

Dessa vez, trazemos algo diferente: preferimos elaborar uma seleção de filmes que mostram de forma diversificada o que foi viver naquela época. Talvez você já tenha visto alguns, talvez você conheça apenas de nome e sempre teve curiosidade de assistir, talvez você nunca tenha ouvido falar de tal filme.

O importante é que você entenda a ideia que está sendo passada aqui: nenhuma análise acerca de qualquer período da história será satisfatoriamente construída se for embasada somente num contexto exclusivamente político.

Por isso, tentamos trazer alguns títulos que têm a ditadura seja como pano de fundo, como personagem atuante ou simplesmente como coadjuvante, enquanto o momento cultural, social ou político é abordado com mais contundência pelos autores dos filmes.


O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006)
Cena do filme O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias.
Cena do filme O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (Globo Filmes/2006)

Este delicado filme de Cao Hamburguer mostra o drama infantil vivido por Mauro, um garoto que recebe a notícia de que seus pais saíram de “férias”.

Seus pais, militantes de esquerda contra a ditadura, em pleno ano de 1970, logicamente não tinham embarcado numa viagem para se divertir, mas nada disso é contado a Mauro, que após a morte do seu avô é obrigado a morar com o vizinho em São Paulo.

E é nesse ambiente de solidão, introspecção e isolamento dos demais, que a criança é colocada, envolta numa sociedade setentista sob o regime militar (recriada de forma impecável) e tendo a Copa do Mundo também como background.

Não espere um filme político, explícito e que fale sobre a ditadura. Espere um retrato interessantíssimo da história de um grande número de crianças e famílias que foram afetadas diretamente pela situação política no Brasil.




Cabra Marcado para Morrer (1985)
Personagens bem reais do documentário Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, na década de 1980.
Personagens bem reais de Cabra Marcado para Morrer (Gaumont do Brasil/1985)

Este é considerado por muitos um dos melhores filmes do Eduardo Coutinho, um dos maiores cineastas brasileiros e que infelizmente não está mais entre nós. O longa caminha entre linguagens documentais e ficcionais, mas com uma razão muito coerente para isso.

A ideia de “Cabra Marcado para Morrer” era a de uma obra semidocumental acerca da vida de João Pedro Teixeira, líder camponês paraibano que foi assassinado no ano de 1962O grande problema é que o projeto foi interrompido graças ao golpe militar. 

Coutinho só conseguiu retomar esse trabalho no ano de 1985, abrangendo de forma mais ampla o tema do filme, mostrando os personagens reais que participariam da concepção inicial e contando a história das ligas camponesas de Galiléia e Sapé.

O documentário possui vários momentos interessantíssimos que mostram a manipulação de informações durante o período da ditadura, seja através de comunicados oficiais dos militares ou até mesmo de jornais que até hoje continuam na ativa.

Um filme que precisa ser visto.




Tropicália (2012)
Logo do filme Tropicália, cena após a cena inicial do documentário. (BossaNovaFilms/2012).
Cena do filme Tropicália (BossaNovaFilms/2012).

O filme de Marcelo Machado é um ótimo exemplo de como aliar o cinema à necessidade de contar uma história que realmente existiu e que para alguns foi dolorosamente palpável, dilacerante.

O curto e delicioso longa (com o perdão do paradoxo das palavras) mostra de forma não linear o estouro do movimento tropicalista, seu fim, seu meio.

Através de imagens raras, sempre permeadas pelas vozes em off daqueles que participaram do movimento, vozes poéticas e de resistência, somos levados a embarcar numa imersão que nos faz abusar das capacidades sensoriais para compreender aquele período cheio de estupor criativo, vontade de viver, de resistir e de beber amargamente o cálice que era oferecido pela situação política do Brasil.




Uma Noite em 1967 (2010)
Mosaico dos artistas que se apresentaram no Festival de 1967.
Uma Noite em 1967/Divulgação.

Este documentário de Ricardo Calil e Renato Terra mostra um dos festivais de música mais marcantes da história cultural do Brasil.

O momento era a final do III Festival da Música Popular Brasileira da TV Record. A data era 21 de outubro de 1967. Os personagens bem reais eram Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Edu Lobo, Mutantes, Sérgio Ricardo, entre outros.

E o que faz deste documentário algo atraente para quem quer entender a época da Ditadura Militar no Brasil? 

Bem, se com esses nomes acima você ainda não está com vontade de ver, o filme traz imagens raríssimas, exemplos imagéticos contundentes do início do movimento tropicalista e da fragmentação política que se formava entre os artistas entre todo o caos social predominante no mundo durante o fim da década de 1960.




Os Doces Bárbaros (1976)

O registro feito por Jom Tom Azulay na década de 1970 é uma pérola para os olhos e ouvidos. Trazendo a música de 4 expoentes músicos brasileiros (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia), através do grupo Doces Bárbaros, vemos como pano de fundo uma sociedade vivendo a conservadora ditadura militar brasileira.

E é só por isso esse filme está na lista? Claro que não.

O documentário mostra situações, entrevistas e apresentações que só poderiam ter acontecido durante o período da ditadura, sendo excelente para que a época estudada seja contextualizada de forma mais completa.

Como no caso da prisão de Gilberto Gil, o que poderia ter sido apenas um caso simples, mas que se transformou em algo de proporções inacreditáveis.



O Dia que Durou 21 Anos (2012)

Este documentário dirigido por Camilo Galli Tavares aborda, meio que acidentalmente, a influência do governo estadunidense no golpe militar que ocorreu no Brasil. 

Acidentalmente porque o filme contaria a história do pai de Tavares, jornalista militante contra a ditadura. Mas o diretor acabou tomando outros rumos quando descobriu que os Estados Unidos possuíam um vasto acervo documental sobre a queda de João GoulartE daí saiu a ideia de abordar a participação norte-americana no "dia que durou 21 anos".

Com entrevistas, filmagens históricas e opiniões de historiadores, o filme se compõe como um excelente material de apoio para o estudo sobre a época.




Manhã Cinzenta (1969)

Deixamos o filme mais explosivo (e esse é o adjetivo mais adequado para a obra de Olney São Paulo) para o final por motivos que vão se tornar óbvios quando você der o play no vídeo abaixo.

Olney foi perseguido, preso, torturado, censurado, mas mesmo assim conseguiu fazer com que seu filme, confiscado pelos militares, sobrevivessePara fugir da censura, o cineasta-militante enviou cópias para diversos festivais de cinema ao redor do mundo, o que também o levou para a prisão.

E é justamente através desse processo de enclausuramento e tortura que o filme aborda a Ditadura Militar no Brasil, encenada com toques realísticos, embora utilize alegorias que tornam tudo na tela um pouco estranho, mas não totalmente longe da realidade que o país vivia naquela época.

Glauber Rocha, grande entusiasta de Olney, dá o seu veredicto sobre o filme em Revolução do Cinema Novo:
Manhã cinzenta é o grande filmexplosão de 1967/8 e supera incontestavelmente os delírios pequeno-burgueses dos histéricos udigrudistas.
Ficou curioso? Então aproveite esse grande momento do cinema político brasileiro.



Bem, com toda a certeza desse mundo você conhece vários outros filmes que abordam o período do regime militar no Brasil. Então, aproveite o espaço dos comentários e troque conhecimento, para que cada vez mais um número maior de pessoas tenha acesso a obras que ficam perdidas entre as produções cinematográficas com maior investimento e quase nenhuma qualidade.



Equipe de produção do artigo:

Beatriz de Miranda Brusantin
Doutora em História Social pela Universidade Estadual de Campinas
Coordenação de Produção e Pesquisa Histórica

Bruno Henrique Brito Lopes
Graduando em História pela Universidade Católica de Pernambuco
Coordenação de Redação e Edição

Raphael Esteves de Almeida Jacinto
Graduando em História pela Universidade Católica de Pernambuco
Pesquisa e Produção de Texto